Perigos Relacionados com a Vida Subaquática

Existem múltiplos riscos associados com o contacto com os diversos animais marinhos que poderão ser encontrados durante o mergulho. O objetivo deste curso não é abordar de forma exaustiva todas as lesões possíveis e os respectivos tratamentos, mas sim dar noções básicas e linhas gerais de atuação.

1.PEIXES VENENOSOS

Nem sempre é fácil, após um acidente, fazer a identificação do peixe (ou outro ser marinho) responsável pelo ferimento, mas isso não tem grande importância, já que os efeitos que os venenos provocam e a atitude a tomar é praticamente a mesma.

Os peixes venenosos raramente são agressivos. O contacto é na maioria das vezes puramente acidental, por distração do mergulhador, ou então devido ao manuseamento indevido do peixe. É preciso não esquecer que, mesmo depois do peixe estar morto, os espinhos continuam a ser venenosos.

Na maioria dos casos, o veneno é muito sensível ao calor, degradando-se se for submetido a uma temperatura elevada. A aplicação de água quente (ou qualquer outra fonte de calor) é uma forma prática de reduzir o seu efeito.

SINTOMAS

Os sintomas iniciais são habitualmente uma dor intensa seguida de um “adormecimento” ou, ao contrário, da “hipersensibilidade” da área em volta da ferida. Frequentemente, a intensidade da dor é desproporcional ao tamanho da ferida (dor muito intensa, com ferida muito pequena). A pele à volta da ferida poderá tornar-se azulada e com inchaço (edema), acompanhada de uma certa palidez dos tecidos circundantes.

Entre os sintomas gerais são frequentes as náuseas, os vómitos, o estado de choque e a perda de consciência. Em alguns casos, pode mesmo ocorrer a morte.

PREVENÇÃO

A atitude mais lógica e eficaz é evitar o contacto com qualquer peixe venenoso. Frequentemente estes peixes encontram-se em buracos e fendas, escondidos entre as algas ou enterrados na areia, como o peixe-aranha.

O mergulhador deverá ter sempre o maior cuidado ao assentar qualquer parte desprotegida do corpo, nomeadamente ao meter as mãos dentro de um buraco ou ao pousá-las no fundo.

2.CASOS ESPECIAIS (Peixe-pedra, peixe-escorpião e peixe-leão)

O Synanceia verrucosa (peixe-pedra), o Scorpaenopsis diabolus (peixe-escorpião) e o Pterois sp. (peixe-leão) são peixes de águas tropicais altamente tóxicos. As toxinas destes peixes produzem efeitos muito semelhantes às dos restantes peixes venenosos, mas frequentemente associados a sintomatologia mais grave, como paragem respiratória, estado de choque, colapso cardiovascular e mesmo a morte.

Para além dos procedimentos de primeiros socorros habituais neste tipo de acidentes, existem nos hospitais antitoxinas específicas para estes casos especiais. Para que esse tratamento seja aplicado é preciso informar o hospital de que o ferimento foi provocada por um destes peixes.

Embora nas nossas águas não sejam frequentadas por estes peixes, o Scorpaena porcus (rascasso-de-pintas) é bastante comum na nossa costa. Este peixe, muito frequente nos fundos rochosos, encontra-se normalmente camuflado entre as algas e tem um veneno bastante poderoso.

4.RAIAS

Na maior parte dos casos de acidentes com raias, o que acontece é o mergulhador pisar ou perturbar a raia e esta ter um movimento defensivo com a cauda quando tenta fugir, podendo daí resultar feridas extremamente dolorosas.

SINTOMAS

O aspecto típico da ferida apresenta uma zona pálida e inchada, com um halo circundante de tonalidade azulada. O principal problema nestes casos é que as infeções secundárias são muito frequentes.

Podem também surgir sintomas sistémicos, tais como tonturas, sensação de desmaio, náuseas, vómitos, suores frios, dificuldade respiratória e estado de choque.

PREVENÇÃO

A prevenção e tratamento destes casos são idênticos aos descritos para a generalidade dos ferimentos causados por peixes venenosos.

5.HIDROZOÁRIOS

Na maioria dos casos o resultado do contacto com estes seres é apenas uma irritação local da pele, mas que pode ser muito dolorosa, como acontece com a pequena Pelagia noctiluca (água-viva), muito comum nos Açores.

Os casos de maior cuidado são o Sea wasp e a Physalia physalis (caravela portuguesa).

SINTOMAS

Nestes dois casos, as toxinas podem provocar reacções alérgicas sistémicas graves, das quais poderá resultar rapidamente o estado de choque ou mesmo a morte (já foram descritos casos mortais após o contacto com a caravela portuguesa).

Existe também o perigo de se desencadear um choque anafilático, uma reacção alérgica maciça que põe em risco a vida do acidentado. Este quadro de sintomas é mais frequente em pessoas que tenham já uma história clínica de manifestações alérgicas.

Porque é difícil prever a ocorrência de um choque anafilático e face à gravidade que esta situação representa, é muito importante manter o acidentado sob vigilância e justifica-se o seu envio imediato para o Hospital.

PREVENÇÃO

Como é evidente a prevenção neste casos é muito importante. Por isso o mergulhador deve estar atento à presença destes animais para evitar contactos acidentais, sobretudo com partes desprotegidas do corpo. Mesmo com o corpo protegido, o contacto é de evitar, porque as células urticantes que fiquem presas ao fato podem ainda causar queimaduras.
Esfregar a ferida com areia não produz qualquer alívio e pode mesmo levar á libertação de mais toxinas, se ainda houver restos de tentáculos na pele.

TRATAMENTO

O tratamento local para o alívio da dor poderá incluir esteroides tópicos, pomadas anestésicas e pomadas antihistaminicas ou mesmo analgésicos e antihistaminas por via sistémica.

6.CORAL

Devido à sua estrutura, por vezes cortante ou abraziva, o contacto com o coral pode resultar em feridas importantes que por vezes levam muito tempo a cicatrizar, surgindo com alguma frequência infeções secundárias. Além disso, alguns corais têm células urticantes, que podem causar queimaduras graves, como acontece com o Millepora platyphylla (coral-fogo).

As feridas resultantes do contacto com o coral devem ser desinfectadas, mantidas limpas e vigiadas. Nalguns casos pode justificar-se mesmo a observação e tratamento por profissionais de saúde, sobretudo quando o coral é urticante.

A prevenção, mais uma vez, faz-se evitando o contacto. Por precaução, o mergulhador deve usar sempre roupa protetora, mesmo em águas quentes.

7.OS GRANDES PREDADORES

Nas nossas águas não há notícias de ataques de tubarões. As espécies aqui existentes são pelágicas e andam afastadas das zonas costeiras frequentadas pelos mergulhadores. Mesmo nos locais onde estes animais abundam, os ataques a mergulhadores são raros (as estatísticas na Austrália revelam que os acidentes de mergulho são muito mais numerosos que os ataques por tubarões).

Os motivos do ataque de um tubarão são quase sempre desconhecidos, ainda que sejam avançadas muitas teorias, e os ataques são na maior parte das vezes imprevisíveis.

Por outro lado, o comportamento do tubarão antes de iniciar um ataque é previsível. O animal nada em círculos cada vez mais apertados em torno da presa, com movimentos amplos e com as barbatanas peitorais dirigidas para baixo (o normal é estarem dirigidas para os lados), podendo o ataque ser precedido de uma aceleração súbita ou outra alteração comportamental.

As lesões podem ser provocadas não só pela mordedura mas também pelo contacto, já que apele do tubarão é muito áspera, por estar coberta de pequenas espículas muito aguçados. Assim, do contacto com o tubarão podem resultar abrasões importantes e com hemorragia significativa.

Há uma série de regras a respeitar para prevenir os ataques destes animais, das quais a mais óbvia é evitar mergulhar nos locais onde eles encontram. Não esquecer que um tubarão nada sempre mais depressa do que qualquer nadador ou mergulhador.

O resultado do ataque de um tubarão é normalmente muito grave, necessitando de tratamento hospitalar urgente.

PRIMEIROS SOCORROS E TRATAMENTO

PEIXES VENENOSOS
  • Retirar o acidentado da água, deitá-lo numa superfície plana, tranquilizá-lo e vigiar. Ter particular atenção aos sinais de choque
  • Lavar a ferida(soro). A sucção da ferida para remover o veneno não é eficaz
  • Colocar a zona afetada em água quente (máxima temperatura tolerada até 50ºC) durante 30 a 90 minutos. Se houver intolerância ao contacto prolongado com a água quente, fazer imersões curtas e repetidas. Em feridas na cara, utilizar compressas ou panos quentes
  • Transportar o acidentado para o hospital Torniquetes e ligaduras não são aconselhados
HIDROZOÁRIOS
  • Remover qualquer tentáculo sem esfregar ou fazer pressão, de preferência com uma toalha ou peça de roupa
  • Lavar a ferida com ácido acético (3 a 10%), para evitar a libertação de mais toxinas
CORAIS
  • Controlar a hemorragia
  • Limpar e desinfectar a ferida
  • Fazer um penso
  • Administrar a vacina antitetanica
  • Administrar antibióticos tópicos ou sistémicos caso se justifique