O Stresse no Mergulho

Nos mergulhadores o Stresse pode apresentar-se de diversas formas, podendo ser organizado duas grandes tipos de causas:

  1. Causas Físicas ou Fisiológicas
  2. Causas Emocionais ou Psicológicas

1. STRESSE FÍSICO OU FISIOLÓGICO


Deriva de razões físicas e não emocionais. Frequentemente este tipo de stresse pode evoluir para um stresse psicológico criando um medo de não ser capaz de ultrapassar a dificuldade inicial, gerando pânico e atitudes descontroladas e perigosas.

O perigo fundamental é não reconhecer os efeitos ou sinais causados pelo stresse fisiológico. A reação é intempestiva e pouco controlável.

Causas e exemplos de estados de stresse fisiológico:

  • Frio – proteção térmica inadequada
  • Enjoo – predisposição individual
  • A narcose – predisposição individual e profundidade
  • Cansaço – predisposição individual, sono e má preparação física
  • Esgotamento – deficiente condição física
  • Doença ou ferimento
  • Droga, medicamentos ou álcool
  • Desconforto ou as funções diminuídas causados por equipamento mal adaptado ou funcionando mal (um colete muito grande, um fato fino demais para uma dada temperatura de água ou umas barbatanas apertadas geram desconforto e diminuição da capacidade de resposta a um problema)

2. STRESSE EMOCIONAL OU PSICOLÓGICO


O stresse emocional ou psicológico é causado por razões essencialmente emocionais ou medos de não ser capaz de cumprir determinada tarefa.

As convicções e atitudes pessoais têm um papel fundamental neste tipo de stresse, levando o mergulhador a reagir de forma muito diversa. O stresse psicológico pode por isso ser real ou imaginário. A angústia causada por este tipo de stresse pode provocar reações inesperadas e descontroladas, mesmo em mergulhadores experientes.

O stresse psicológico pode facilmente refletir-se em problemas físicos como cãibras ou falta de coordenação motora. A reação impulsiva para resolver a situação pode ser um desastre.

Causas possíveis e exemplos de casos de stresse psicológico

  • O medo – de não ser capaz de nadar até ao barco ou de o ar não ser suficiente para chegar à superfície pode gerar um conflito importante no comportamento e reação do mergulhador.
  • Convicções e atitudes pessoais – Acreditar mais ou menos nas suas possibilidades e capacidades de resolução influenciam de maneira significativa a reação a este tipo de stresse.
  • Tarefa com maior grau de dificuldade – A mesma tarefa pode ser difícil para um mergulhador e fácil para outro. A experiência e conhecimentos são fundamentais nestes casos.
  • Demasiada pressão dos companheiros – Atenção especial à pressão e influência dos companheiros, sobretudo para os menos experientes, que podem reagir com uma espécie de pânico passivo a uma tarefa que, sendo fácil para os outros, lhes parece extremamente pesada.
  • Perceção que os riscos são maiores que o normal – Situações de preocupação e angústia tais, onde pequenos problemas que se resolvem em circunstâncias normais sem sobressaltos parecem grandes problemas, induzindo o sentimento que o risco é maior do que seria para uma pessoa em circunstâncias normais. A tarefa de tirar água do tubo em circunstâncias normais poderá ser um pesadelo numa situação de grande aflição.
  • O stresse psicológico pode ser real ou imaginário – Há medos que são reais, todavia um mergulhador toldado pela angústia tem tendência a considerar perigos imaginários, reagindo negativamente.

O stresse psicológico pode resultar em:

  • Ansiedade e angústia
  • Distração e diminuição da capacidade de raciocínio
  • Diminuição das funções motoras
  • Pânico

A EVOLUÇÃO DO STRESSE


O stresse é um mecanismo de alerta que não aparece repentina ou instantaneamente, mas sim de forma gradual por meio de uma série de mecanismos que são indicadores claros de que o processo de stresse está a produzir efeitos nos comportamentos da pessoa.

Embora existam várias formas do stresse evoluir desde o seu estado inicial até que afete um indivíduo de forma séria, sendo o processo descrito de seguida é o mais geral e, portanto, o que temos maior probabilidade de observar em mergulhadores.

A escala pessoal, cognitiva de adaptação apresenta 3 fases descritas acima e 4 etapas:

  1. Alerta
    • Ruptura dos mecanismos normais de adaptação.
  2. Frustração
    • Mistura entre as condutas de resolução de problemas com as de proteção própria.
  3. Stresse
    • Quando persiste a frustração sem conseguir entender a solução. Existe um abandono das ações orientadas e a solução do problema e se centram na proteção do “eu”.
  4. Esgotamento
    • Pelo aumento da fadiga ou inibição psíquica, inicia-se um processo de desistência e perca de esperança que resultam em decréscimo alarmante da atividade.

FATORES DE STRESSE NO MERGULHADOR


Muitos são os fatores que tanto como na vida do dia a dia como no mergulho podem ser potenciadores de situação de stresse. De uma forma geral podemos organizar estes fatores em cinco categorias:

  1. Estruturais
  2. Fisiológicos
  3. Rendimento e Conduta Humana
  4. Mecânicos
  5. Técnicos

ESTRUTURAIS


São aqueles que predispoêm o mergulhador a sofrer de stresse antes de começar a mergulhar.

  • Restrições mecânicas da atividade física
  • Baixa forma física
  • Mergulho de risco, como noturno, grutas, pântanos, debaixo de gelo, profundo, técnico, etc…

FISIOLÓGICOS


São todos aqueles que resultam de alterações de carácter fisiológico por efeito dos gases respirados. Fundamentalmente, devem-se a inalação de nitrogénio ou outro gás inerte, a altas ou baixas concentrações de oxigénio, existência de dióxido de carbono (CO2) no sangue ou presenção de mónóxido de carbono (CO) no ar respirado.

  • O Efeito destes gases é muito variado, desde produzir narcose, euforia, sonolência e efeitos similares, a causar problemas respiratórios com estados de nervosismo, stresse e pânico.

RENDIMENTO E CONDUTA HUMANA


Dentro desta categoria incluímos efeitos de caracter ambiental que alteram o comportamento humano, afetando as suas funções vitais, obrigando a uma adaptação rápida a novas situações e circunstâncias, em que alguns casos dá lugar a uma situação de inquietação que gera o stresse.

Ambientais
  • Pressão. As variações de pressão causam efeitos muito variados no mergulhador, desde problemas de compensação nos ouvidos, barotraumatimo da máscara ou do fato, alteração do equilíbrio hidrostático, cólica dos escafandrista, todos eles fatores que podem ser a origem de uma situação de stresse.
  • Frio. O frio gera sensações de falta de conforto que pode gerar stresse.
  • Visibilidade. A falta de visibilidade és uma das principais causas de inquietação no mergulhador, gerando uma resposta fisiológica de um estado de alerta que pode evoluir para stresse.
  • Correntes. A presença de correntes, especialmente aquelas que o mergulhador se sente impossibilitado de contrariar, dão lugar a uma sensação de falta de segurança e confiança nele próprio e nos meios e equipamentos, que desencadeiam reações nervosas, típicas do stresse, que podem originar erros e acidentes graves.
  • Vida Marinha. A vida marinha, fauna e flora, podem de forma direta como mordeduras, cortes, picadas, etc… como de forma indireta por sensações de receio e medo de animais ou plantas, criar uma sensação de stresse sério no mergulhador.
  • Estado do Mar e Metereologia. As condições do mar, assim como uma situação metereológica adversa, podem ser causadoras de um estado de stresse no mergulhador, criando uma predesposição negativa para mergulhar.

Também são causas de stresse os processos derivados de uma atitude pouco sensata ou prudente do mergulhador, o desenvolvimento de uma conduta incompatível com a prática de mergulho podem resultar dos seus hábitos de vida ou do seu comportamento de natureza impulsiva.

Psicológicos
  • Ansiedade. Como já vimos as alterações de pressão, luminosidade, visibilidade, meio marinho, etc…, são a causa de ansiedade em muitos mergulhadores, especialmente os menos experientes, que dão lugar ao stresse de carácter psicológico.
  • Estimulação Sensorial. As novas sensações que se produzem debaixo de água, especialmente antes da aparição de coisas ou animais, causam uma grande excitação no mergulhador e podem ser a causa de stresse. São casos típicos, a aparição de tubarões, entrada em grutas, descobrir um naufrágio, mergulhar sob grande precipícios submarinos, etc…
  • Atrevimento Excessivo. A ousadia dos mergulhadores, especialmente os pouco conscientes dos riscos que certas práticas do mergulho dão lugar a situações de perigo que podem gerar situações de alerta características do stresse.
  • Superar os Limites. O sentimento de bater recordes, e querer ir sempre mais fundo, mais tempo, e não respeitar a mais elementares normas de segurança, passar os limites da nossa certificação, a experiência, competências em determinadas situações, estado físico e preparação mental, são causas que colocam os mergulhadores em muitas situações limite que potenciam reacções incontroladas de stresse.
  • O Consumo de Drogas ou Álcool. É completamente desaconselhado para a prática de mergulho, o consumo de drogas, tabaco ou substâncias farmacológicas. O seu consumo interferem nas capacidade física e mental do mergulhador para responder a qualquer eventualidade ou problema que surja durante uma imersão, sendo também inibidores que podem gerar sensações anómalas, falta de conforto que podem levar a uma situação de stresse.

MECÂNICOS


São aqueles em que o stresse é motivado pelo mal funcionamento, falta ou mal uso de algum elemento do equipamento. Dentro dos diferentes tipos de problemas mecânicos podemos distinguir como os mais comuns os seguintes:

  • Perda de Equipamento
  • Avaria de Equipamento
  • Desconhecimento do funcionamento dos elementos de controlo do equipamento

A principal causa de stresse deve-se à falta de segurança que ocorre pela avaria de um elemento do equipamento, que o mergulhador esparava utilizar e no momento de utilizar, este se depara com a sua avaria.

Outra das causas, é o mau uso por desconhecimento, criando situações de inquietação, como subidas descontroladas, erros de calculo nas paragens de descompressão, etc.., que podem causar acidentes graves. A situação prévia à possibilidade de ocorrer o acidente é claramente um quadro potenciador de stresse.

TÉCNICOS


Muito semelhantes aos mecânicos, devido ao uso incorreto do equipamento, criando situações de risco que potenciam a ansiedade e stresse no mergulhador.

Os mais comuns são:

  • Falta de habilidade nas técnicas de utilização dos equipamentos
  • Falta de formação em técnicas de utilização dos equipamentos